O coordenador do serviço de nefrologia do Hospital Márcio Cunha, Daniel Calazans, foi eleito vice-presidente da Sociedade Brasileira de Nefrologia (SBN) para o biênio 2019-2020.

Sendo referência nacional, o Hospital Márcio Cunha possui um Centro de Terapia Renal Substitutiva (CTRS), onde são realizados desde acompanhamentos ambulatoriais, biópsias, acesso vascular, diálise perotoneal, hemodiálise, até transplantes renais. Atualmente, o CTRS atende regularmente cerca de 1000 pacientes renais crônicos.

A Unidade de Transplantes do Hospital Marcio Cunha é a única transplantadora no leste de Minas Gerais, atendendo a pacientes de diversas cidades da região, obtendo resultados assistenciais comparados aos melhores serviços do mundo.

O médico, em entrevista à Revista MaisVip, fala sobre as especificidades do setor, destacando a importância da doação de órgãos e explicando como funciona a SBN.

Quais são as principais doenças que atingem os rins?

As patologias renais são um problema de saúde pública mundialmente conhecido: tanto a Doença Renal Crônica (DRC) quanto a Injúria Renal Aguda contribuem para o aumento dos custos com a saúde e da morbimortalidade das doenças crônicas. A Sociedade Brasileira de Nefrologia estima que 1 em cada 10 pessoas tenham algum grau de DRC, embora a incidência e prevalência variem de região para região.

A DRC tem impacto brutal no bem-estar do paciente devido à sua frequente incapacidade de trabalhar, inabilidade de ir à escola, à redução na qualidade de vida e às severas limitações financeiras impostas pela sua condição de saúde – situação agravada pelo fato de o baixo status socioeconômico relacionar-se ao maior risco de desenvolver essa condição.

Segundo dados do Global Burden of Disease Study de 2017, a mortalidade por DRC no Brasil aumentou alarmantes 44% nos últimos 10 anos, tornando essa entidade a décima principal causa de morte em nosso país. Globalmente, a DRC é a décima nona principal responsável por anos de vida perdidos e a sétima em provocar mais deficiências.

Existem dados sobre os casos no Brasil?

Atualmente, passamos de estimados 48 mil pacientes, em 2002, para 126 mil pacientes em 2017, que realizam diálise. São 40 mil novos pacientes por ano. Resultado do crescimento desproporcional da relação pacientes/clínicas, da baixa capacidade de receber novos pacientes e do consequente represamento de internados que dependem do tratamento dialítico para sobreviver – o que acaba impactando na disponibilidade de leitos hospitalares.

Mesmo que o crescimento absoluto significativo represente 610 pacientes por milhão de habitantes (PMP), esse número ainda é menor que o observado em países vizinhos como Uruguai, Chile e México, onde a taxa passa de 1000 pacientes PMP. Isso indica que estamos diagnosticando em menor proporção essa condição na nossa população, elevando, consequentemente, sua taxa de mortalidade. Destes, apenas 7.8 % estão em programa de Diálise Peritoneal (DP).

A doação de órgãos é um importante instrumento para recuperação de alguns pacientes. Qual o número de pessoas na fila e qual a importância da doação?

O Brasil é o segundo país em número absoluto na realização de transplantes renais do mundo. Todavia, quando se analisa por milhão de população, caímos para 33ª. posição mundial. São realizados anualmente cerca de 6000 transplantes renais (30 por milhão de população), metade da necessidade estimada (60 por milhão de população).

Existem 22.429 mil pacientes ativos na lista de espera para transplante renal (dados ABTO). Entretanto, o número estimado deveria ser próximo a 70 mil. A taxa de doadores efetivos (cerca de 17 por milhão de população) encontra-se bem abaixo de países desenvolvidos. A heterogeneidade é o que mais preocupa, uma vez que conta com muitas regiões no Norte ainda sem ofertar o método e com taxas de captação de órgãos bem inferiores ao Sul e Sudeste.

Recentemente, o senhor foi eleito vice-presidente da Sociedade Brasileira de Nefrologia (SBN). Quais são os seus objetivos à frente dessa instituição?

A atual diretoria, capitaneada pelo professor Marcelo Mazza está muito empenhada a lutar pelas melhorias para a nefrologia brasileira.

Nosso planejamento estratégico é amplo e global. Algumas ações terão interface no Ministério da Saúde, ANS, AMB, Anvisa, CFM e MEC, sobre toda situação do tratamento conservador, diálise peritoneal, hemodiálise e transplante renal do país.

Os 10 pontos prioritários são:

1) Enumerar os vazios assistenciais, definir estratégias para criação de ambulatórios de Prevenção de Doença Renal Crônica e estruturar uma rede;

2) Revisar o financiamento para sessão de hemodiálise, que se encontra defasado. Nos últimos 20 anos, ocorreram 9 reajustes no valor da sessão de hemodiálise, totalizando 107.5%, enquanto, no período, o salário mínimo foi reajustado em 601,47%. A inflação anual acumulada nesses anos foi de 309.38% – uma diferença de 201,85% para o reajuste acumulado do valor da sessão de hemodiálise;

3) Rever o modelo de diálise peritoneal e estratégias específicas das regiões Norte e Nordeste;

4) Discutir sobre a situação dos atrasos de repasses às clínicas e as devidas responsabilizações;

5) Criar centros de referência para confecção e cuidados com fístula arteriovenosa;

6) Revisar portarias de diálise em regime de terapia intensiva;

7) Viabilizar centros de referência para realização de biópsia renal;

8) Garantir fornecimento regular de medicamentos imunossupressores e especiais;

9) Discutir o financiamento do transplante renal;

10) Rediscutir o modelo captação de órgãos.

Daniel Calazans acaba de encerrar seu mandato como presidente da Sociedade Mineira de Nefrologia. É graduado em Medicina pela Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais, com passagem pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro. Especializado em nefrologia pelo Hospital Universitário Ciências Médicas, em Belo Horizonte, o doutor também realizou estágio em Transplante Renal no Hospital Santa Marcelina, na cidade de São Paulo.  Além disso, é titulado pela Sociedade Brasileira de Nefrologia e Associated Editors do Brazilian Journal of Nephrology.

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